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9.7.09

O significado (ou a falta de ) das palavras

Sempre depois de uma aula de chinês a minha cabeça sai fritando. Um pouco porque fazia muito tempo que eu não estudava chinês, um pouco porque é uma professora particular nova (e eu tenho meus bloqueios, preciso me sentir confortável com a pessoa pra sair cometendo erros sem surtar), um pouco porque eu preciso falar (posso passar horas estudando caracteres faceira, odeio abrir a boca) e muito porque é um idioma difícil pra chuchu.

Mesmo assim eu curto bastante quando estou estudando. Curto a lógica (ou a falta de) do idioma. Algumas vezes é uma lógica ingênua, quase infantil, e por isso fofinha. Well, outras vezes é de pensar “what the fuck?”, mas em geral é fofo. Fora quando fica até meio poético. Olha só.

Amor é ai, que se escreve 爱 hoje em dia. Em chinês tradicional (e também japonês) se escreve 愛. Ou seja, tiraram uma parte do caractere para simplificar a escrita. Até aí, sem problema. O amigo está dentro do amor, pois uma das partes que o compõem é 友, que significa amigo. Então que no amor precisa amizade. Mas daí algo aconteceu, não sei se foram as guerras, se foi o comunismo, mas quando simplificaram a escrita tiraram o coração do amor. Como? Aqui neste愛 dá pra ver uma partezinha espremida, 心, que significa coração. Triste, mas na China de hoje o amor é sem coração. Ainda falando de amor, ou melhor do爱, uma das palavras que eu mais gosto é marido-esposa (serve para os dois), que é airen 爱人. Te ligou que o amor está entre os cônjuges, não? O outro caractere que forma a palavra é ren 人, que significa pessoa. Pessoa amada. Fofíssimo, não? Se tem uma coisa que eu me surpreendi aqui, e ainda me surpreende, é a quantidade de casais que briga na rua. Quando eu falo briga não me refiro a bate boca, é porrada mesmo. O cara bate na mulher e a mulher bate no cara em qualquer lugar: na rua, no shopping, no bar, na frente do trabalho. Acho que o problema todo com a chinesada é que tiraram o coração do amor. Só pode.

Falando em coração (esse心 coração) me lembrei de outro. “Você” em chinês é 你, ni. Pois a forma respeitosa de dizer você é 您, nin. Reparou que ali embaixo tem o caractere de coração?Então se você chama alguém com respeito, chama com o coração.

Outra coisa que eu e minha professora ficou explicando foi no 女, que se lê nü (faz biquinho pra falar) e se refere à mulher, ao gênero feminino, e todas as palavras onde é necessário diferenciar o gênero, ele está presente. Apesar da cultura machista, por exemplo, o “bom”, que se escreve 好, tem um toque feminino. Outro que dá uma levantada na bola na mulherada é “segurança”, an 安 . Segundo a minha professora aquilo ali em cima do caractere é uma representação de casa, ou seja, casa que tem mulher significa em chinês, literalmente, segurança. Curtiu?

Agora tá rolando toda essa tensão em Xinjiang, província no noroeste da China que faz fronteira com o Paquistão e cuja população é, na maioria, muçulmana. As questões étnicas por trás disso são muitas, mas gostei de uma observação que escutei sobre o assunto. Vocês sabem que os muçulmanos não comem carne de porco, né? Isso me lembrou um dos caracteres com a lógica mais sem sentido para mim. Well, suíno por essas bandas se escreve 豕. Lembra da parte de cima do segurança, que a profe disse que era uma representação de casa? Então que se a gente pegar o suíno e colocar aquela partezinha em cima, o caractere fica assim 家, certo? O problema é que isso, em chinês, se lê jia e significa casa, no sentido de lar, ou família. A conclusão da pessoa foi: como eles não vão ficar brabos se colocaram o porco na família? Esse caractere é tão sem sentido quanto a violência dos distúrbios do último domingo.

Bom, mas isso é assunto pra um outro texto, num outro dia.

14.5.09

Diálogo recorrente

Moça branca de olhos verdes arredondados entra no táxi.
- Ni hao!
- Ni hao!
- Eu quero ir para a Rua Nanluogoxiang. 
- Ok

A moça branca está num daqueles dias em que não quer conversar com ninguém. Muito menos em chinês.

- Você é alemã, não é?
- Não, não sou.
- Hmmm... então é da Holanda.
- Não, não sou.
- Americana, certo?

Moça branca pensa: logo hoje, logo hoje ele quer conversar...

- Não, eu sou brasileira
- Brasileira! Tinha certeza

Ahan, claro que tinha
Por favor, não fale de...

- Futebol! O futebol do Brasil é muito bom
- Sim, é muito bom.

Por favor, não fale do...

- Ronaldo! Adoro o Ronaldo! Ele é ótimo jogador!

Ó, Senhor! Tudo de novo! Eu não vou suportar se ele falar do...

- Kaká! Também adoro o Kaká!

- Ahan... Que legal...

Afffffffff

13.5.09

O pesadelo de um e a picada no outro

Eu lembro que quando era mais nova morria de medo de ir ao banheiro à noite. Além de todos os fantasmas e monstros que uma criança pode imaginar, eu tinha ainda outros medos. Tremia as pernas só de pensar na possibilidade de ter um sapo, ou qualquer outro bicho dentro da privada no momento em que eu tivesse fazendo xixi. Quando eu ia pro sítio do meu tio esse medo era multiplicado por 1397. Não, eu nunca vi nenhum tipo de bicho dentro da privada. Não, isso nunca aconteceu comigo de verdade.

Mas ali na vizinha Taiwan, um azarado de 51 anos teve os meus pesadelos transformados em realidade. O tiozão foi faceiro ao banheiro dar uma "aliviada", sentou na privada e levou uma dolorida picada de cobra. 


Como desgraça pouca é bobagem, a cobra mordeu o pênis do cara. 
Agora ele está lá, internado em um hospital esperando o risco de infecção passar. Mas tenho certeza que esse aí vai inspecionar muito bem o banheiro antes de usar.

5.5.09

Prazer, Terremoto!

Esse texto foi originalmente publicado no meu outro blog, o Comendo de Palitinho. Achei que seria interessante dividir ele com vocês aqui também.

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O tremor deixou mais de 87 mil mortos e desaparecidos

Com a proximidade do dia 12 de maio, as matérias que recontam o horror e que avaliam as consequências do devastador terremoto que sacudiu o sudoeste da China há um ano aumentam. Mais do que normal lembrar. Mais do que necessárias as homenagens aos mais de 87 mil mortos e desaparecidos.
Porém, hoje a agência de notícias do governo chinês divulgou uma notícia que me deixou, digamos, perturbada. Há uma estatística que diz que cerca de 700 bebês nasceram em barracas ou alojamentos temporários após o sismo. E que uma grande parte dos pais quis lembrar o ocorrido de 12 de maio de 2008 no nome dos filhos. Assim como Yang Chao, um jovem de 29 anos, que colocou o nome das filhas gêmeas, nascidas seis semanas após o sismo, de Zhen (震), que significa tremor, para que elas nunca esqueçam do que aconteceu em Sichuan e em que circunstâncias nasceram. Da mesma maneira, muitas pessoas escolheram Chuan (川), lembrando o local do epicentro do terremoto, o distrito de Wenchuan (汶川), onde 20% da população de 100 mil habitantes morreu ou foi considerada desaparecida.
Eu concordo com as homenagens, concordo que certas coisas não devem ser esquecidas, mas batizar um filho com o nome de terremoto? O que tem que ficar disso tudo são as lembranças, as homenagens, mas principalmente a solidariedade do mundo todo naquele momento extremamente doloroso. Lembrar talvez nas cidades, com nomes de ruas, mas estigmatizar os filhos, fazendo com que eles levem isso adiante eu fico meio chocada. Na minha opinião, os filhos deveriam ser batizados com nomes que lembram força, esperança, superação. Porque eles simplesmente eram a vida brotando no meio do caos.

Um ano depois, que seja lembrada a solidariedade

As fotos não são minhas. Na realidade eu nem sei de quem são. Eu peguei em algum lugar no ano passado ainda e na bagunça do computador acabei não registrando os créditos. Sorry!

3.5.09

Descascando abacaxi

Literalmente.
Adoro o jeito que o povo descasca abacaxi aqui na China. Na real, nao soh aqui, em outros lugares da Asia tambem eh assim.
Mas acho muito bom comprar abacaxi aqui (sao docinhos como os de Terra de Areia, adoro!) e pedir ele descascadinho. Num minuto fica assim:



Ah, vai dizer que nao gostou?